A gente se mete a escrever porque um garoto lindo lhe disse que gostava de escritoras; porque precisa de um álibi para não trampar; porque isso o faz sentir-se superior; porque leu uns contos de fadas e quer entrar na concorrência; porque não tem voz; porque não tem ritmo; porque descobre que os garotos bonitos dizem que as escritoras são cultas mas saem com as dançarinas; porque é magro e não tem remédio; porque está acima do peso e não consegue emagrecer.
A gente se mete a escrever porque tem medo de morrer sem ter dormido com um cara popular; porque sabe que o cinema atual quase sempre é tempo perdido; porque tem inveja dos micos que aparecem na tela e ganham milhões; porque é um rockstar frustrado; porque não sabe qual carreira seguir; porque na falta de melhores oportunidades quer ser como J.K.Rowling; porque essa edição do Big Brother Brasil já terminou.
A gente se mete a escrever porque não se atreve a assaltar um supermercado quando não tem dinheiro pro chiclete; porque ama aquele cara que namora aquela garota linda; porque não há revistas interessantes suficientes; porque não é aquela garota linda, nem a garota inteligente, nem a popular; porque é a garota nada; porque quer fazer alguma coisa além de comer e dormir; porque sua mãe grita o tempo todo; porque não há ilusões nem luz no fim do túnel; porque sua mãe grita um pouco mais; porque o Che Guevara dentro de você ainda está adormecido; porque não tem coragem para pular de Bungee Jump; porque não tem aquela cruzada de pernas da Sharon Stone; porque era uma vez o amor mas eu tive que matá-lo novamente.
O bom é que escrever não serve para nada daquilo que a gente quer. Escrever é uma fuga da realidade, um passatempo, uma vontade, um sonho, um limite. O bom é que depois de escrever a gente se sente na mesma. Tudo continua no seu devido lugar (menos você, maldito cabelo).